Por Pedro Fraga

Estamos nos aproximando da terceira semana seguida de protestos e manifestações populares ao redor do Brasil. Ao longo dos dias que se passaram, o que víamos era uma massa ainda disforme, com um ideal claro – a diminuição do preço da tarifa de transporte público em São Paulo – e muita intensidade nas reivindicações. Sentindo no bolso o aumento de míseros vinte centavos, os estudantes e trabalhadores da capital paulista mostraram para o Brasil – e para o mundo – que a indignação frente a um governo que acoberta casos de corrupção, constrói estádios para enriquecer uma entidade privada já rica e não dá qualquer tipo de assistência médica para o trabalhador que movimenta a economia do país, estava entalada até a garganta.

Se refletirmos sobre esses atos de indignação, vamos constatar milhares de fatos discutíveis. O primeiro deles é a situação financeira do cidadão do maior centro econômico do país, que não consegue suportar um aumento de vinte centavos que, sem sombra de dúvida, fará falta no final do mês.  Se o sujeito pega dois ônibus por dia para ir e voltar do trabalho, quase dez por cento de um salário mínimo (que já não é muito) é gasto somente nas tarifas de ônibus. Cobrar três reais de tarifa por um transporte ruim, inseguro e pouco efetivo – cheio de atrasos por conta do trânsito mal planejado – já é assalto a mão armada. Aumentar mais vinte centavos, então, é crime hediondo.

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Foto: Desconhecida

Até aqui, tudo bem. Os protestos seguiam pacíficos e numerosos. Por algum motivo ainda obscuro, a polícia militar e a tropa de choque da cidade de São Paulo resolveram acabar com a ‘’vadiagem’’ dos manifestantes. Ao contrário do que a imprensa brasileira (que deixou claro sua ineficiência e incapacidade de fazer uma cobertura jornalística séria e não tendenciosa) mostrava nos primeiros momentos de confronto, os manifestantes não avançavam. A tropa de choque se posicionava, e quase instantaneamente, os manifestantes se sentavam ou recuavam com gritos de ‘’sem violência!’’. De forma covarde e despreparada, a tropa de choque avançou (obviamente, a mando de superiores sentados em suas poltronas confortáveis).

Sim, o confronto ocorreu. E foi justamente essa truculência desnecessária da polícia de São Paulo que impulsionou a maioria dos protestos que ocorreram no Brasil. Na rua, os manifestantes que gritavam por liberdade e direitos garantidos pela constituição se deram conta que o país era uma verdadeira peneira. Passaram, então, a gritar contra a impunidade dos corruptos, contra os problemas graves de infraestrutura, contra a superfaturação das obras dos estádios que serão utilizados na copa, etc., etc., etc…

E antes que comecem a falar sobre depredação, vandalismo e anarquia generalizada, vos digo: não houve revolução sem confronto. Obviamente, torço e peço aos manifestantes que mantenham suas reivindicações de forma pacífica. Mas a indignação do povo brasileiro é tamanha que nos faz repensar em que patamar está a verdadeira violência; quem será o verdadeiro contraventor disso tudo? Os manifestantes que saem as ruas pedir (veja bem, PEDIR) algo que já lhes é assegurado pela constituição brasileira, ou os governos municipais, estaduais e federal que não conseguem disponibilizar, por exemplo, leitos decentes para a população que adoece pelas próprias condições paupérrimas oferecidas nas capitais?

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Foto: Desconhecida

Foram vinte centavos que tiraram os paulistas de casa. Foram as ações covardes e despreparadas da polícia paulista (contra a ‘’galera dos vinte centavos’’) que tiraram os brasileiros de casa. E que continuem aparecendo problemas e mais problemas outrora escondidos sob a fachada de uma democracia que não funciona, porque, assim, mais pessoas saem de casa.

Dessa forma, gritaremos mais alto. E pelo visto, tem dado resultado. Arrisco-me a dizer, inclusive, que agora é tarde demais.

Ah… E a essa altura você já deve saber disso: A luta não é só por vinte centavos. Não mais.

**O governador e prefeito do Estado de São Paulo já revogaram o aumento de 3,20 centavos, assim como várias outras cidades brasileiras.