Por Pedro Fraga

A América Latina (como os estadunidenses gostam de chamar) é subestimada por nós mesmos. Porque não temos por aqui atrações como os castelos medievais, ou uma muralha quilométrica, uma torre inclinada, optamos por conhecer lugares consagrados por esses monumentos fora do continente (como Europa e Ásia). É absolutamente normal conhecer alguém que mora no Brasil e já conhece todo o interior da França, por exemplo, e nunca visitou um dos maiores pólos culturais do mundo que é Buenos Aires, e que está aqui ‘’do lado’’. Obviamente, não há mal nenhum nisso. O questionamento, na verdade, gira em torno do preconceito e da síndrome de ‘’terceiro mundo’’ que cerca o continente, que força as pessoas do próprio ‘’mundo latino’’ a conhecerem culturas fora das fronteiras continentais, esquecendo a pluralidade cultural, artística e étnica que existe ‘’aqui’’.

Refletindo um pouco sobre isso, chegou até as minhas mãos um projeto paraguaio de inclusão social que deixa claro o pensamento sobre a riqueza cultural latina. Cateura, uma favela de Assunção (Paraguai), vive às traças e a mercê de um lixão formado ali. Os catadores que vivem da coleta de lixo daquela região decidiram usar toda a sucata em bom estado que encontravam para fabricar instrumentos típicos da música erudita. Violinos, violoncelos, violões, contrabaixos, flautas… Tudo feito a partir de sucata. O som não era o dos mais profissionais, mas rendia uma sonoridade única com um misto de súplica e denúncia, como se a comunidade dissesse: ‘’Ei, olha o que nós fazemos com o que vocês jogam aqui. Também somos civilizados, ao contrário do que pensam. ’’

8LosReciclados

O grupo que toca esses instrumentos é chamado de Los Reciclados, e é formado por jovens que moram no entorno do lixão.  O diretor do projeto que ensina música a esses jovens se chama Favio Chavez, e com uma frase conseguiu resumir toda a discussão a respeito de ‘’riqueza’’: ‘’Um violino novo custaria mais que suas casas (referindo-se aos jovens). ‘’

Já existe no kickstarter (ferramenta que possibilita que qualquer um financie um projeto) a proposta de financiamento do filme que contará a história dessa orquestra de jovens. Sugiro que você, no mínimo, dê uma olhada no trailer e nas imagens. Se achar que deve, contribua. Projetos dessa magnitude vão muito além do que as horinhas gastas pelos jovens nessa favela paraguaia.  Torna-se um exercício humanista olhar para uma iniciativa como essa e não admirar, aplaudir e refletir.

A América Latina é grande e subdesenvolvida. Mas muito rica.

Veja o trailer e conheça a página do filme no facebook: