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o conto ”Teoria do Medalhão”, de Machado de Assis, que se encontra em domínio público.  São só sete páginas :) Boa leitura!
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Por Pedro Fraga

É intrigante notar a capacidade que os autores considerados canônicos têm de eternizar suas obras deixando-as absolutamente contextualizadas com a sociedade em que vivem. Mais interessante ainda é perceber que, séculos depois, revisitando tais obras, as críticas depositadas ali permanecem válidas e atuais, cabendo até comparações com os modos de vida da sociedade em que estamos inseridos. Na época em que ‘’Teoria do Medalhão’’ foi escrito, o Brasil vivia com uma classe dominante burguesa que vivia as custa de seus diplomas acadêmicos, mas tinha na troca de favores e no jogo de interesses a verdadeira base para as relações sociais. Um diálogo simplório a primeira vista, daqueles que comumente se vê entre um pai e filho quando este último se mostra apto a seguir sua carreira profissional, mas que denota um caráter absolutamente ácido e crítico. Essa é reflexão que Machado de Assis proporciona.  E é justamente essa facilidade de se criticar toda a sociedade carioca da época através de um diálogo entre pai e filho que reforça a já consagrada carreira do autor.

Vivemos hoje em uma sociedade que não só reforça o que Machado de Assis escreveu, mas que acrescenta inúmeros outros pontos a discussão.  O cenário político nacional é uma descrição precisa da relação baseada na troca de favores, que pode ser representada através dos casos de favorecimentos para esse ou aquele partido. Dígitos e mais dígitos de verbas partidárias são diariamente distribuídas entre nomes de influência nos centros legislativos para que esse ou aquele benefício seja adicionado para determinado grupo. A questão central dos órgãos que comandam o país deixou de ser os reais problemas que necessitam de atenção e se tornou uma interminável luta pelo poder, e o cargo com maior influência é o verdadeiro catalisador das discussões.

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A ideia central de Machado ao criticar a burguesia do final do século XIX que dominava o país, é mostrar o quanto pode ser prejudicial produzirmos profissionais que nunca sairão da zona de conforto proporcionada por seus diplomas. Atualmente, o que vemos é uma extensão desse discurso, que deixou de ser restrito somente aos diplomas universitários e se tornou um verdadeiro culto a mediocridade. Nas escolas brasileiras, a reprovação se tornou algo completamente inaceitável, mas não no sentido de excelência ou cobrança por resultados, e sim pela incapacidade de se melhorar o ensino básico. A nota mínima para a aprovação do aluno despencou, o incentivo a mediocridade aumentou. E ao invés de se investir em uma completa repaginação do sistema educacional brasileiro, a escola diz ao aluno que os seus esforços não serão recompensados. Assim como Machado de Assis descreve, é mais interessante manter-se na média necessária para comprovar que você está apto a seguir em frente do que, de fato, se destacar da maioria e trilhar um caminho de excelência.

Já é extremamente repugnante acompanhar um discurso de valorização da mediocridade vindo de um pai para um filho, porém, é esse choque que mais chama a atenção no conto de Machado. O pai, experiente e entendido da situação, guia seu filho a ‘’dançar conforme a música’’, no dito popular. Infelizmente, vivemos em uma realidade que obriga o indivíduo a se adequar ao sistema em que ele está inserido, e pensar nos inúmeros problemas que isso pode gerar não é incentivado. Em um trecho do conto, Machado de Assis deixa claro que, para que o filho consiga viver sem grandes problemas, ele não pode direcionar o seu tempo para reflexões: ‘‘… mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.’’. Porque refletir sobre determinado assunto, se algum cientista, filósofo ou sociólogo já o fez? Janjão, o filho, é instruído para que suas apostas sejam feitas sempre no que já está imortalizado, assim, as chances de erro são nulas. Apostar no certo, naquilo que já foi dito e repassado a todos como verdade. Esses, para o pai de Janjão, são os coerentes. São aqueles que se tornarão medalhões.

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Costumamos ironizar que o conteúdo aprendido nas salas de aula do curso de ciências humanas serve, muitas vezes, para usarmos em conversas triviais, em bares, restaurantes. Citar Freud, Marx, Nietzsche e outros que quebraram paradigmas com seus modos de pensar, pode fazer com o que o estudante de ciências humanas passe uma imagem estereotipada do intelectual, do instruído. No conto de Machado, é justamente isso que o pai tenta mostrar ao filho. Um medalhão, como explica o pai, é um indivíduo que aparenta ter conhecimento, sem de fato, tê-lo. No caso do estudante de ciências humanas, é muito simples. Pegamos um punhado de frases dos grandes pensadores, vomitamos isso em uma linha de raciocínio coerente e pronto. A visão do outro sobre nós é mudada. É nesse meio de vida baseado no status e na aparência que Machado faz de seu conto uma obra imortal.

Machado de Assis consegue através da sua ‘’Teoria do Medalhão’’ mostrar seu lado crítico e discute o maior problema da sociedade da época e da sociedade atual: a mediocridade estabelecida. Curioso, e absolutamente revoltante, é ver que, desde o final do século XIX, o modo de se gerar relações sociais no Brasil ainda seja por meio de troca de favores ou jogo de interesses. A aparência e o status social prevalecem, infelizmente, sobre as mentes propulsoras das discussões sociais relevantes.