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Porque o filme O Escafandro e a Borboleta deve ser visto

Porque o filme O Escafandro e a Borboleta deve ser visto

Por Pedro Fraga

Curioso como o acaso pode trazer transformações à vida do indivíduo, seja ele cinéfilo ou não. Sem conhecer a obra, o diretor, os atores ou qualquer assunto relacionado a O Escafandro e a Borboleta, fui convidado por um desses acasos a comprar o filme. É bem verdade que isso se deu ao fato de que o preço estava imperdível – e o bom cinéfilo anda sempre preparado para eventuais promoções no mercado de home vídeo. Preços a parte, esse belo negócio que fiz me rendeu reflexões muito além da economia, ou de qualquer outro assunto material e é esse o assunto de hoje da nossa coluna.

Filme francês dirigido pelo americano Julian Schnabel retrata a vida de Bauby, que por uma infelicidade (ou felicidade para nós, espectadores?) do acaso, enquanto dirigia seu carro, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe tirou todos os movimentos do corpo, a fala e um dos olhos. Na ficção, Bauby é um bem sucedido editor de uma famosa revista francesa, que nunca reclamou de sua vida, nem se gabava de poder usufruir dos frutos de seu trabalho. E esse tal acaso que citei lhe aparece em forma de AVC e o tira de ‘’combate’’ da noite para o dia.

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O interessante é que pouco tempo depois do acidente, Bauby decide aprender o método de comunicação criado por uma de suas fisioterapeutas: O alfabeto é citado até que Bauby pisque o único olho que lhe resta. Uma vez para ‘’sim’’ e duas para ‘’não’’. Assim, nosso editor impossibilitado escreveu o livro que dá o nome ao filme.

Em uma de suas páginas, Bauby se queixa da impossibilidade de fazer coisas simples como mudar o canal da TV, ou comer a própria comida. Porém, quando sua ex-mulher chega ao fatídico quarto de hospital para uma visita, Bauby se queixa da impossibilidade de amar. A impossibilidade de abraçar seus filhos, a impossibilidade de sair e olhar o belo pôr do sol parisiense e outras ações que hoje se tornaram tão banais a sociedade, pois gozamos de saúde e nos julgamos ‘’amados’’ demais para nos darmos ao trabalho de amar nossas(os) parceiras(os) com mais intensidade.

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E esse tal acaso que transformou o famoso editor Bauby em um inválido poderia ter caído na sua vida, ou na minha e sem que pudéssemos perceber, lá estaríamos numa cama, impossibilitados de amar ou de demonstrar o afeto que, por conta da vida corrida e atarefada, passa batido. Enquanto obra, O Escafandro e a Borboleta é um excelente exemplar do cinema francês (e não citei as brilhantes sacadas técnicas). Enquanto peça reflexiva, O Escafandro e a Borboleta é o ‘’soco no estômago’’ que todos nós deveríamos tomar ao acordar.

Não é sobre o amor. E sim sobre a oportunidade de estar vivo (e apto) para amar. Filme obrigatório.

Porque o filme Hitchcock deve ser visto.

Porque o filme Hitchcock deve ser visto.

Por Pedro Fraga

Alguns filmes costumam sofrer do velho problema do ‘’conteúdo prévio’’ para funcionar. É comum, por exemplo, encontrarmos adaptações de livros para o cinema que só conseguem agradar quando o espectador tem total conhecimento da obra escrita. Isso ocorre também em outros âmbitos da cultura pop, como no caso de filmes que narram a trajetória musical de uma banda. O fato é que, para que sejam extraídos cem por cento de todo o potencial da obra cinematográfica, nesses casos, é preciso que o espectador conheça a real fonte daquilo que está sendo projetado. Quando um filme não precisa do tal conhecimento prévio para funcionar, ótimo. A obra cinematográfica cumpriu seu papel. Esse é o maior problema de Hitchcock (idem, 2012), que se sustenta graças os olhares atentos dos amantes do cinema clássico.

Baseado no livro Alfred Hitchcock and the making of Psycho, de Stephen Rabello, o filme conta a trajetória da criação, do desenvolvimento e do lançamento do famoso e polêmico Psicose, do ainda no auge Alfred Hitchcock. Os problemas que ‘’Hitch’’ teve com a censura, com a crise criativa e com seu casamento são os motivos que tornaram Psicose um dos maiores filmes da história do cinema, segundo o longa.

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Para a famosa cena do chuveiro foi escalada Scarlett Johansson, interpretando a icônica Janet Leigh. Sem dúvida, quando falamos de Psicose, a combinação de faca, mulher nua e violinos gritantes vêm à mente quase automaticamente. No filme, a cena serve para mostrar o lado perturbador do diretor, aquele em que a tese de que ‘’todos os homens são psicopatas em potencial’’ é defendido.

Ninguém menos que Anthony Hopkins poderia se comprometer a interpretar de forma expressiva e convincente um dos maiores cineastas da história do cinema. Completamente modificado fisicamente, Hopkins entrega um senhor inglês genial em seu trabalho e absolutamente problemático do ponto de vista emocional. A segurança que seu personagem demonstra ao dirigir uma cena se contrapõe a forma estúpida e insegura que trata a vida profissional de sua esposa, a talentosíssima Helen Mirren vivendo Alma Reville. A motivação de Hitchcock ao investir cada centavo de sua poupança (hipotecando a casa, inclusive) na realização de Psicose pode ser vista na expressão de Hopkins, assim como a tristeza e apatia de um confronto claramente perdido entre ele e sua esposa. O casal de atores leva o filme com a entrega habitual de seus trabalhos e convence facilmente.

Apoiado nas sutilezas do dia-a-dia de Hitchcock, o filme se mantém em um ritmo constante e sem muitas extravagâncias. A direção de arte é excelente e constrói o ambiente necessário para que o filme se torne verossímil, bem como a trilha sonora, estável, cadenciada e bem encaixada. Em resumo, o filme é simples e seguro no que se propõem.

CORMAYEUR NOIR: APPLAUSI ALL'APERTURA CON 'HITCHCOCK'

Porém, o nicho é estabelecido no momento em que Hitchcock não se esforça para se tornar interessante ao espectador normal, que não conhece a obra do diretor, e, obviamente, o diretor. Para o indivíduo que tem como referência os diretores de aluguel, tais como Paul W.S. Anderson, Bay, Peter Berg e outros, a história do lançamento de Psicose passa absolutamente batido. O espectador que decide sair de casa num sábado, encarar engarrafamentos, bilheterias lotadas e outros empecilhos para ver Hitchcock, tem em mente quem ele foi e o que sua obra representa. Ele enxerga o filme como um complemento, um apêndice para o entendimento da carreira de um dos maiores cineastas de todos os tempos.

O filme não é ruim, longe disso. Narra de forma leve e interessante a dificuldade que Hitchcock enfrentou para tirar do papel um dos melhores filmes da história. Para nós, cinéfilos, isso é sensacional. Para o espectador sem esse rótulo, Hitchcock é mais um filme. Só mais um filme.

E se para nós o filme é sensacional, é possível encontrar referências claras a outros grandes filmes da carreira do cineasta. Eu contei cinco, e você?

Porque o filme Hotel Transilânia deve ser visto

Porque o filme Hotel Transilânia deve ser visto

Por Pedro Fraga

A minha geração acompanhou de perto o trabalho de um artista da animação em particular. Crescemos assistindo O Laboratório de Dexter e Samurai Jack, sendo esse último uma das maiores revoluções no mundo das animações. Mundialmente conhecido pelos trabalhos atuais em Star Wars: The Clone Wars, Genndy Tartakovsky assumiu a cadeira de diretor no longa metragem Hotel Transilvânia (Hotel Transylvania, 2012), e mesmo tendo Adam Sandler e sua turma por trás do projeto consegue divertir como nenhum outro filme de animação do ano.

No século XIX, com o cenário de perseguição aos monstros e criaturas das trevas, o Conde Drácula decide construir um refúgio de paz e tranquilidade para aqueles que ganham a vida assustando. Assim nasceu o Hotel Transilvânia, que leva em seu slogan o compromisso de manter os humanos bem longe. A filha do vampiro mais famoso do mundo está completando 118 anos, e durante a maior temporada do hotel, um humano aparece para ‘’infernizar’’ as férias dos hóspedes e estragar os planos da festa de aniversário da vampirinha.

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Uma animação atrelada à comédia, como é o caso de Hotel Transilvânia, é olhada com outros olhos quando o nome de Adam Sandler está nos créditos finais. É fato que Sandler não é um dos comediantes mais talentosos atualmente (e seu maior papel está num filme dramático, diga-se de passagem), mas o preconceito gerado em cima de seus trabalhos é tamanho que já basta o nome do cidadão em um pôster que o rótulo de ‘’lixo’’ aparece automaticamente. E Hotel Transilvânia sofre muito disso, especialmente aqui no Brasil. Sandler é produtor executivo do filme, e boa parte dos dubladores originais está diretamente ligada a ele, já que estão em quase todos os filmes que Sandler produz. Não é problema nosso, porque a dublagem brasileira é bem divertida. Apenas um personagem sofre com o problema dos sotaques forçados, mas ele fala pouco.

O traço que diferencia os trabalhos de Tartakovsky infelizmente não está presente. Os rostos genéricos e que podem ser vistos na maior parte dos filmes da Dreamworks, por exemplo, deixam a desejar e se mostram o ponto mais fraco do filme. Em contrapartida, o carisma dos personagens consegue contornar a pouca originalidade no traço. Temos, por exemplo, o lobisomem pai de família, que sofre com sua enorme quantidade de filhotes. Temos uma múmia guitarrista, um homem invisível que jura que tem cabelo grande e muitos outros personagens secundários que conseguem arrancar várias risadas da molecada.

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E como não poderia faltar, temos aquela boa zoação com a mitologia fracassada de Crepúsculo e suas fadas, digo, vampiros. O Conde Drácula, vendo aquela baboseira na TV, manda um: ‘’A que nível fomos rebaixados… ’’.

A abordagem dos roteiristas Peter Baynham e Robert Smigel é extremamente bem sucedida quando coloca os monstros na posição dos humanos e vice-e-versa. Uma história sobre preconceito, ainda que sob a fachada de um amor adolescente. Várias piadas funcionam e mesmo se apoiando no clichê para concluir a trama, é possível sair satisfeito do cinema.

Fácil, dinâmico e divertido. Esse é Hotel Transilvânia.