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Porque o filme Hell deve ser visto

Porque o filme Hell deve ser visto

Por Pedro Fraga

Independente do tipo de apocalipse que você acredita que poderá ocorrer, algo é absolutamente comum a todos eles. Podem ser os zumbis, o apocalipse nuclear, os ETs… Não importa. O maior inimigo da humanidade será ela mesma. Milícias se formarão, comida e água se tornarão itens raros e você precisará chegar ao limite para sobreviver. E é justamente essa a abordagem que os filmes adotam para narrar histórias pós-apocalípticas, explorando o limite e a natureza duvidosa do ser humano. Hoje temos o dúbio Hell (Alemanha, 2012), que se apropria do que de melhor existe no gênero para contar algo um pouco diferente – mas que acaba se perdendo no meio do caminho.

Num futuro muito próximo, a Terra tornou-se uma imensa bola infértil. Inclusive, esse é um dos pontos mais interessantes dessa produção, já que estamos a exatos três anos de seus acontecimentos. Em 2016, como explica o filme, a temperatura do planeta subiu dez graus Celsius, e todos os animais e plantas, obviamente, sofreram as conseqüências. O aquecimento provocou também aquela tão temida falta d’água (que é um assunto bastante discutido no Brasil por abrigarmos uma das maiores reservas do mundo). Em meio a essa escassez de suprimentos, conhecemos Phillip, Marie e sua irmã mais nova, que estão partindo em busca de água e melhores condições de vida. ‘’As montanhas estão com vida’’, pensa Phillip ao ver uma ave indo em direção as montanhas.
O sol se tornou um perigoso adversário, desidratando e queimando qualquer um que se expusesse a ele. O dia passou a ser muito mais perigoso que a noite.

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Foi esse cenário árido e desértico que o diretor estreante Tim Fehlbaum escolheu para ambientar sua história, que vai além do interesse científico sobre o aquecimento da Terra e parte para o velho e batido estudo sobre a natureza humana e suas necessidades. Com todas as dificuldades de se viajar à luz do dia e a escassez de suprimentos, formaram-se grupos de ladrões e desesperados por comida e água, dispostos a fazer qualquer coisa para sobreviverem. Na trama conhecemos um desses grupos, na verdade, uma família, que além de batalhar pela sobrevivência, pretende ainda dar continuidade a raça humana. Bonito, não? O problema é que essa família seqüestra mulheres para que os homens possam desfrutar dos prazeres da carne e, de sobra, render filhos.

Nessa divisão de batalha pela sobrevivência num mundo pós-apocalíptico e família bizarra que sequestra as pessoas para interesse próprio, o filme cai no seu principal problema. A trama deixa de seguir um rumo e troca, de forma abrupta, para um viés completamente diferente do proposto no início do filme, e o que era considerado perigoso, passa a ser secundário. O sol e o clima agressivos passam a se tornar coadjuvantes quando os personagens principais encontram a tal família, e o filme passa a ser de terror em seus moldes clássicos. Mesmo com essa mudança, o filme se sustenta, na maioria das cenas, pelas boas atuações. A personagem de Marie, que no início só queria proteger a irmã, cresce e se torna forte. Diante das adversidades, a personagem passa até uma mensagem feminista interessante, mas nada muito explícito.

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A fotografia do filme é definitivamente o diferencial. Para o bem ou para o mal. Os tons pastéis excessivamente brilhosos estouram a primeira vista, assim como nos personagens, que não podem olhar diretamente para o sol, nem deixar os olhos expostos por muito tempo. O filme, nos seus minutos iniciais e finais, parece ter usado um filtro absurdamente claro em sépia nas filmagens, e na pós-produção, o brilho foi colocado pelo estagiário abusado. O fato é que o visual ficou extremamente interessante e nos coloca com uma pulga atrás da orelha com relação a esse tipo de acontecimento. O Sol e a Terra podem (quando quiserem) destruir ou dificultar a vida insignificante que temos por aqui. Somos formiguinhas na mão desse universo, e, no mísero ponto de vista, esse apocalipse é o mais possível, e o mais próximo.

Para escapar desse terrível fato que assola a humanidade, o filme assume um caráter esperançoso ao final, e nos revela aquilo que precisamos para continuar acreditando que é possível viver em paz nesse pálido ponto azul.

Dúbio na narrativa e no nome (Hell em alemão pode ser ‘’brilho’’ ou ‘’inferno’’. Sacaram a brincadeira com a luz, o sol e o inferno instaurado?), o filme se encaixa perfeitamente numa tarde tediosa. É falho, mas interessante e bem sucedido em diversos pontos.

Porque o filme Copacabana deve ser visto

Porque o filme Copacabana deve ser visto

Por Pedro Fraga

O cinema francês é um segmento que ainda não caiu nas graças do grande público aqui no Brasil. Em todas as produções encontramos qualidades únicas, que se diferem uma das outras por seus caprichos ou atuações. Em Copacabana,  temos os caprichos de um diretor e roteirista somados a uma encantadora atuação de sua atriz principal.

 Isabelle Huppert, que interpreta Babou, é uma mãe desempregada que viveu seus melhores anos enquanto viaja pelo mundo. Sua filha, Esmeralda (Lolita Chammah, filha de Isabelle na vida real), pretende se casar, mas não tem total apoio da mãe, pois a mesma acredita que o casamento é “coisa de burguês ´´. O filme não tem a intenção de revelar muito sobre Babou, mas fica subtendido que seu passado meio hippie e sua vontade de viajar deixam claro o porquê de sua dificuldade em se encaixar na sociedade.

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 Esse é um dos grandes pontos do roteiro escrito por Marc Fitoussi (também dirige o longa), que tenta mostrar a dificuldade que uma pessoa aberta a novas experiências e com a mente livre de preconceitos tem em tentar encaixar-se no meio em que vive.  Isso seria normal, e até um pouco clichê, se a pessoa em questão fosse uma jovem tentando seu espaço, mas aqui não é o caso. Temos uma jovem senhora tentando viver de acordo com suas próprias regras, desde fumar alguns baseados para relaxar, até hospedar moradores de rua em seu local de trabalho.

 O nome Copacabana serve somente para definir o local idealizado por Babou, pois a cultura brasileira e o seu modo de enxergar o mundo encontram-se  presentes   nas ruas da cidade maravilhosa. A trilha sonora do filme, mesmo se tratando de uma produção européia, é composta apenas por grandes clássicos da MPB, que tocam ao fundo de uma paisagem européia fascinante.

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Copacabana vai muito além de um filme de baixo orçamento, e passa a seus espectadores a visão de uma senhora que acredita na boa relação mãe-filha, abordando a questão de encaixar-se, ou não, no meio social.

Um filme francês de qualidade.

Porque o filme Django Livre deve ser visto

Porque o filme Django Livre deve ser visto

Por Pedro Fraga

Quentin Tarantino é um nerd clássico. Aprendeu a fazer cinema por conta dos inúmeros filmes que assistiu, e isso está absolutamente claro a todos que assistem a qualquer uma de suas obras. Ao todo são sete filmes, e em todos eles vemos recortes, adaptações e, por que não, melhoramentos de filmes consagrados. Há quem diga que Cães de Aluguel, filme que lançou sua carreira como cineasta, é uma cópia descarada de City on Fire, filme chinês oitentista. Porém, creio que todos aqueles que acompanham sua filmografia e a defendem, tem isso em mente sob a ótica de que Tarantino é um ser muito peculiar, e seus gostos pessoais fazem seus filmes pularem do conceito de ‘’plágio’’ para o conceito de ‘’homenagem’’.  O fato é que Tarantino faz filmes extremamente divertidos, adicionando suas visões insanas e sobrepondo a ideia que, na maioria das vezes (Pulp Fiction não conta), já existe.  Um filme necessita de alma, personalidade. E Tarantino sabe, como poucos, alcançar esse nível de particularidade.

Como bom nerd, faltava a Tarantino um filme western de verdade. Fã de Sergio Leone e do western spaghetti, o anúncio de que viria um filme com essa temática não tardaria a aparecer. Já passamos pelas artes marciais, pelas quadrilhas de roubo a banco e até por nazistas… Era chegada a hora da famosa ‘’câmera árida’’. E por incrível que pareça, Tarantino consegue fazer de Django Livre (Django Unchained, 2012) o filme menos western de sua filmografia, transformando-o, porém, na comédia que faltava em seu currículo.

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A história (do próprio Tarantino) nos apresenta a Django (Jamie Foxx), um escravo que fora libertado pelo Dr. Schultz (Christoph Waltz) para que, juntos, pudessem procurar e matar alguns bandidos. Schultz logo descobre que Django tem um talento nato para atirar, e lhe oferece mais algumas buscas, prometendo-lhe uma parte das recompensas. Django pega gosto pela coisa e decide libertar sua esposa Broonhilda (Kerry Washington), que está servindo ao escravocrata lunático Calvin Candle (Leonardo DiCaprio). Para isso, Django e Schultz armam um plano e partem com a missão de libertá-la.

É claro que uma mente insana como a de Tarantino não deixaria de retratar o velho oeste americano da forma mais crua e violenta possível. O sangue faz parte da história americana, assim como também faz parte da filmografia de Tarantino, logo, juntamos aqui a fome com a vontade de comer. A violência chega a ser extremamente ridícula em certos pontos, deixando a seriedade de lado e assumindo-se absurda, e são nesses pontos que o filme mostra sua verdadeira identidade. Normalmente, um tiro a queima roupa não poderia (em mentes sãs) significar algo engraçado. Tarantino, porém, justifica as balas sob a ótica do propósito maior que é a libertação da esposa de Django, e no meio disso ainda estão as escorregadias explicações de Schultz para as mortes causadas.  Quando alguém morre de forma aparentemente injustificável, lá está o dentista caçador de recompensas com uma ordem judicial na mão.

Como já é de costume, as atuações aparecem como componente chave para o ritmo do filme, que tem quase 3 horas de duração. Christoph Waltz está absolutamente fantástico como dentista caçador de recompensas e proporciona a maioria das risadas que Django Livre dispõe. Sua charrete com um molar gigante no teto já demonstra o pouco tom de seriedade que seu personagem carrega. Leonardo DiCaprio faz um dono de escravos extremamente cruel quando cria, lá nos primórdios da civilização americana, o MMA. Em determinados momentos, chega a assustar. O destaque vai para Samuel L. Jackson, que faz um velho escravo que chefia todos os outros escravos da mansão de Calvin Candle. Stephen (Jackson) é a representação dos poucos momentos de seriedade que o filme possui. Ele é um escravo, negro, que se assusta ao ver um negro, semelhante a ele, montado em um cavalo. Um escravo chefiando escravos. Quando Stephen surge no filme, a mensagem que fica é justamente o que representa a loucura do velho oeste. Os interesses de cada indivíduo fazem com que, muitas vezes, seus próprios princípios sejam deturpados.

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A trilha sonora, como de costume, não respeita a cronologia do filme. Como parte importantíssima em sua filmografia, Tarantino homenageou a cultura negra com inúmeras canções, passando da música de abertura ‘’Django’’ até o Hip Hop atual, que compõe uma das melhores cenas de ação do filme.

Com a participação do próprio Tarantino, uma sequência impagável envolvendo gorros da Ku Klux Klan e atuações impecáveis, Django Livre se mostra descompromissado ao fazer o espectador gargalhar durante boa parte do filme, e tem em um de seus personagens a crítica central a sociedade atual.

O western menos western da carreira de Tarantino.

O Brasil no Oscar. Conheça a trajetória!

O Brasil no Oscar. Conheça a trajetória!

Por Pedro Fraga

O cinema nacional sempre foi alvo de críticas por parte do grande público. E, de fato, o cinema nacional feito para a massa nunca foi um primor. Porém, fora dos grandes circuitos, as produções brasileiras independentes sempre renderam excelentes histórias. É só pegar para assistir a lista de filmes indicados a festivais brasileiros, como o festival de Paulínia, por exemplo, que a qualidade e os talentos são facilmente percebidos. Mas se o cinema nacional tem qualidade e potencial, porque não há um reconhecimento por parte dos grandes prêmios, por exemplo, o Oscar? Difícil dizer… Muitos defendem a questão política que o Oscar carrega, entre outros fatores. Eu prefiro acreditar que, dentre todas as vezes que batemos na trave para levar uma estatueta, os filmes concorrentes eram superiores.

Falando nisso, você sabe quais foram as participações brasileiras no Oscar? Temos uma pequena lista de candidatos verde e amarelos que já pisaram no tapete vermelho mais famoso do mundo, e que, por alguma razão, acabaram não levando o prêmio. O Brasil nunca ganhou um Oscar, mas as indicações envolvem obras bastante relevantes e que, de alguma forma, mudaram o cenário nacional. A categoria mais importante, e a que se encaixa para as produções brasileiras, é a de melhor filme em língua estrangeira. E nessa categoria nós já tivemos quatro representantes de peso.

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 A primeira indicação ocorreu no ano de 1963, com o filme ‘’O Pagador de Promessas’’. Obra absolutamente incontestável de Anselmo Duarte, que no ano anterior havia ganhado a concorrida Palma de Ouro do Festival de Cannes. No elenco estavam nomes como Glória Menezes, Leonardo Villar e outos. O filme contava a história de Zé do Burro (Villar) e seu debate religioso entre o catolicismo e o candomblé.
Infelizmente, naquele ano concorria o francês ‘’Sempre aos Domingos’’, de Serge Bourguignon, que acabou tirando o título do primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar.

Os americanos demoraram 33 anos para indicar o segundo filme de nacionalidade brasileira. E essa indicação veio para ‘’O Quatrilho’’, em 1996, também na categoria de melhor filme estrangeiro. Fabio Barreto dirigiu a história de dois casais que viviam no interior do Rio Grande do Sul na primeira década do século XX e acabam se apaixonando, digo, a mulher de um se apaixona pelo marido de outra e vice e versa. No elenco estavam as fantásticas Glória Pires e Patrícia Pillar, juntas de Alexandre Paternost, Bruno Campos e outros.
A estatueta acabou ficando nas mãos do holandês ‘’A Excêntrica Família de Antônia’’, da também holandesa Marleen Gorris.

Dois anos após Fabio Barreto levar o Brasil para Hollywood, sua família decide figurar novamente entre os melhores filmes estrangeiros do ano. Em 1998, Bruno Barreto, irmão de Fabio, leva o seu ‘’O que é isso, companheiro’’ para o Oscar. O elenco conta com nomes consagrados como Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Mateus Nachtergaele, Luís Fernando Guimarães, Selton Mello e grande elenco. A indicação é curiosa porque a história do filme trata justamente de uma ferida americana ainda pouco explicada. Um embaixador americano foi sequestrado, durante a ditadura militar, por membros da Ação Libertadora Nacional e do Movimento Revolucionário Oito de Outubro. No filme, o embaixador serviria de moeda de troca para a libertação de alguns integrantes desses grupos. Mais uma vez, o filme brasileiro saiu sem nada… Naquele ano o também holandês (ta virando perseguição) ‘’Caráter’’ de Mike Van Diem levou o prêmio.

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O Brasil vinha bem no Oscar. Uma indicação em 96, outra em 98. Sem prêmios, mas com o devido reconhecimento. Com um ano de diferença, precisamente em 1999, ‘’Central do Brasil’’ foi indicado ao Oscar com um acréscimo: a indicação de Fernanda Montenegro ao prêmio de melhor atriz pela sua MONSTRUOSA atuação. Um verdadeiro marco para o cinema nacional… Nunca tivemos um de nossos atores entre os melhores do ano, segundo a Academia. Walter Salles dirigiu um dos filmes mais citados quando o assunto é a injustiça (comum, até) que o Oscar comete todos os anos. O filme é excelente, mas concorria com outro filme de qualidade comparável, o (belíssimo) italiano ‘’A Vida é Bela’’, de Roberto Benigni. Até aqui, tudo bem. O prêmio foi dado à Itália e, analisando as duas obras e os concorrentes, era o filme mais cotado a ganhar. Entretanto, na categoria de melhor atriz, a ABSOLUTAMENTE SUPERIOR Fernanda Montenegro acabou perdendo a estatueta para a segura Gwyneth Paltrow, de ‘’Shakespeare Apaixonado’’. Ali nascia a minha birra com o Oscar…

Porque o filme O Escafandro e a Borboleta deve ser visto

Porque o filme O Escafandro e a Borboleta deve ser visto

Por Pedro Fraga

Curioso como o acaso pode trazer transformações à vida do indivíduo, seja ele cinéfilo ou não. Sem conhecer a obra, o diretor, os atores ou qualquer assunto relacionado a O Escafandro e a Borboleta, fui convidado por um desses acasos a comprar o filme. É bem verdade que isso se deu ao fato de que o preço estava imperdível – e o bom cinéfilo anda sempre preparado para eventuais promoções no mercado de home vídeo. Preços a parte, esse belo negócio que fiz me rendeu reflexões muito além da economia, ou de qualquer outro assunto material e é esse o assunto de hoje da nossa coluna.

Filme francês dirigido pelo americano Julian Schnabel retrata a vida de Bauby, que por uma infelicidade (ou felicidade para nós, espectadores?) do acaso, enquanto dirigia seu carro, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe tirou todos os movimentos do corpo, a fala e um dos olhos. Na ficção, Bauby é um bem sucedido editor de uma famosa revista francesa, que nunca reclamou de sua vida, nem se gabava de poder usufruir dos frutos de seu trabalho. E esse tal acaso que citei lhe aparece em forma de AVC e o tira de ‘’combate’’ da noite para o dia.

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O interessante é que pouco tempo depois do acidente, Bauby decide aprender o método de comunicação criado por uma de suas fisioterapeutas: O alfabeto é citado até que Bauby pisque o único olho que lhe resta. Uma vez para ‘’sim’’ e duas para ‘’não’’. Assim, nosso editor impossibilitado escreveu o livro que dá o nome ao filme.

Em uma de suas páginas, Bauby se queixa da impossibilidade de fazer coisas simples como mudar o canal da TV, ou comer a própria comida. Porém, quando sua ex-mulher chega ao fatídico quarto de hospital para uma visita, Bauby se queixa da impossibilidade de amar. A impossibilidade de abraçar seus filhos, a impossibilidade de sair e olhar o belo pôr do sol parisiense e outras ações que hoje se tornaram tão banais a sociedade, pois gozamos de saúde e nos julgamos ‘’amados’’ demais para nos darmos ao trabalho de amar nossas(os) parceiras(os) com mais intensidade.

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E esse tal acaso que transformou o famoso editor Bauby em um inválido poderia ter caído na sua vida, ou na minha e sem que pudéssemos perceber, lá estaríamos numa cama, impossibilitados de amar ou de demonstrar o afeto que, por conta da vida corrida e atarefada, passa batido. Enquanto obra, O Escafandro e a Borboleta é um excelente exemplar do cinema francês (e não citei as brilhantes sacadas técnicas). Enquanto peça reflexiva, O Escafandro e a Borboleta é o ‘’soco no estômago’’ que todos nós deveríamos tomar ao acordar.

Não é sobre o amor. E sim sobre a oportunidade de estar vivo (e apto) para amar. Filme obrigatório.

Porque o filme Universidade Monstros deve ser visto

Porque o filme Universidade Monstros deve ser visto

Por Pedro Fraga

A divisão de gêneros e de público alvo nos filmes comerciais (blockbusters) é bastante simples. Existem filmes voltados para o público adulto, juvenil e infantil. Cada um estabelece suas regras e modelos, além de atingir uma parcela específica dos consumidores da sétima arte. No meio desse caminho claramente dividido e fragmentado, existe uma empresa que sempre se preocupou em agradar o mais ingênuo dos garotos, o mais chato dos adolescentes e até o mais experiente dos senhores. Essa é a Pixar, um estúdio de animação que despeja vida em carros, brinquedos e, no nosso caso, monstros!

Em 2001 foi lançado o filme Monstros S.A., um sucesso de bilheteria e de aceitação da crítica. Doze anos depois, com Universidade Monstros (Monsters University, 2013), o estúdio decidiu contar a história que antecede os acontecimentos do filme de origem. Mike Wazowski e Jimmy Sullivan não estão na gloriosa companhia de sustos Monstros S.A., e sim iniciando suas vidas acadêmicas na Universidade Monstros, onde decidem cursar o ‘’programa de sustos’’. Com o objetivo de se tornarem ‘’assustadores profissionais’’, Mike e Sullivan se estranham por não compartilharem das mesmas qualidades: Mike é extremamente esforçado e inteligente, mas não assusta uma mosca; já Sullivan é filho de um famoso ‘’assustador profissional’’ e tem no sangue a qualidade de assustar, mas não se esforça e não assimila conteúdo muito bem. Juntos, os dois precisam superar muitos obstáculos para alcançar seus sonhos (para Mike) e seu destino (para Sullivan).

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Universidade Monstros é um retrato absolutamente fiel da entrada de um adolescente em uma universidade, com todos os problemas de sociabilidade, tribos, planos e perspectivas para o futuro. A direção de arte é impecável nesse aspecto, pois consegue recriar com perfeição a divisão dos grupos em uma determinada área da universidade; atletas, nerds, alternativos, calouros… E como já era de se esperar, a Pixar precisa ser enaltecida pela quantidade absurda de monstros desenhados para o casting do filme. São várias as cenas em que vemos centenas de monstros juntos, e cada uma parece ter sua identidade visual própria.

Se no visual o filme faz valer o ingresso, no subtexto a produção se firma de vez como uma das melhores do ano até o momento. Com a mensagem batida de ‘’trabalhe e consiga’’, o roteiro prova que um clichê bem desenvolvido, bem contado, funciona perfeitamente. Universidade Monstros é um filme clichê sobre a arte de fazer clichês funcionarem. Confuso, não? Eu explico. Em determinado momento da projeção, Mike recria um cenário que serviria para assustar adultos (e isso envolve bonecas assustadoras, vento batendo na janela e vitrola arranhando). Com isso, Mike prova que com os atributos corretos, torna-se fácil assustar alguém, mesmo se tratando de um adulto cético. Traduzindo para o filme: um clichê bem contado, funciona.

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As crianças aprenderão lições importantes de perseverança e trabalho duro, assim como os adultos, que se encantarão mais uma vez com uma emocionante história de amizade. Enquanto a Pixar continuar produzindo bons filmes, serei criança.

Porque o filme Hitchcock deve ser visto.

Porque o filme Hitchcock deve ser visto.

Por Pedro Fraga

Alguns filmes costumam sofrer do velho problema do ‘’conteúdo prévio’’ para funcionar. É comum, por exemplo, encontrarmos adaptações de livros para o cinema que só conseguem agradar quando o espectador tem total conhecimento da obra escrita. Isso ocorre também em outros âmbitos da cultura pop, como no caso de filmes que narram a trajetória musical de uma banda. O fato é que, para que sejam extraídos cem por cento de todo o potencial da obra cinematográfica, nesses casos, é preciso que o espectador conheça a real fonte daquilo que está sendo projetado. Quando um filme não precisa do tal conhecimento prévio para funcionar, ótimo. A obra cinematográfica cumpriu seu papel. Esse é o maior problema de Hitchcock (idem, 2012), que se sustenta graças os olhares atentos dos amantes do cinema clássico.

Baseado no livro Alfred Hitchcock and the making of Psycho, de Stephen Rabello, o filme conta a trajetória da criação, do desenvolvimento e do lançamento do famoso e polêmico Psicose, do ainda no auge Alfred Hitchcock. Os problemas que ‘’Hitch’’ teve com a censura, com a crise criativa e com seu casamento são os motivos que tornaram Psicose um dos maiores filmes da história do cinema, segundo o longa.

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Para a famosa cena do chuveiro foi escalada Scarlett Johansson, interpretando a icônica Janet Leigh. Sem dúvida, quando falamos de Psicose, a combinação de faca, mulher nua e violinos gritantes vêm à mente quase automaticamente. No filme, a cena serve para mostrar o lado perturbador do diretor, aquele em que a tese de que ‘’todos os homens são psicopatas em potencial’’ é defendido.

Ninguém menos que Anthony Hopkins poderia se comprometer a interpretar de forma expressiva e convincente um dos maiores cineastas da história do cinema. Completamente modificado fisicamente, Hopkins entrega um senhor inglês genial em seu trabalho e absolutamente problemático do ponto de vista emocional. A segurança que seu personagem demonstra ao dirigir uma cena se contrapõe a forma estúpida e insegura que trata a vida profissional de sua esposa, a talentosíssima Helen Mirren vivendo Alma Reville. A motivação de Hitchcock ao investir cada centavo de sua poupança (hipotecando a casa, inclusive) na realização de Psicose pode ser vista na expressão de Hopkins, assim como a tristeza e apatia de um confronto claramente perdido entre ele e sua esposa. O casal de atores leva o filme com a entrega habitual de seus trabalhos e convence facilmente.

Apoiado nas sutilezas do dia-a-dia de Hitchcock, o filme se mantém em um ritmo constante e sem muitas extravagâncias. A direção de arte é excelente e constrói o ambiente necessário para que o filme se torne verossímil, bem como a trilha sonora, estável, cadenciada e bem encaixada. Em resumo, o filme é simples e seguro no que se propõem.

CORMAYEUR NOIR: APPLAUSI ALL'APERTURA CON 'HITCHCOCK'

Porém, o nicho é estabelecido no momento em que Hitchcock não se esforça para se tornar interessante ao espectador normal, que não conhece a obra do diretor, e, obviamente, o diretor. Para o indivíduo que tem como referência os diretores de aluguel, tais como Paul W.S. Anderson, Bay, Peter Berg e outros, a história do lançamento de Psicose passa absolutamente batido. O espectador que decide sair de casa num sábado, encarar engarrafamentos, bilheterias lotadas e outros empecilhos para ver Hitchcock, tem em mente quem ele foi e o que sua obra representa. Ele enxerga o filme como um complemento, um apêndice para o entendimento da carreira de um dos maiores cineastas de todos os tempos.

O filme não é ruim, longe disso. Narra de forma leve e interessante a dificuldade que Hitchcock enfrentou para tirar do papel um dos melhores filmes da história. Para nós, cinéfilos, isso é sensacional. Para o espectador sem esse rótulo, Hitchcock é mais um filme. Só mais um filme.

E se para nós o filme é sensacional, é possível encontrar referências claras a outros grandes filmes da carreira do cineasta. Eu contei cinco, e você?

Porque o filme As Aventuras de Pi deve ser visto

Porque o filme As Aventuras de Pi deve ser visto

Por Pedro Fraga

Nas intermináveis discussões sobre cinema que tenho, costumo dizer que, se um filme consegue gerar algum tipo de reflexão após os seus minutos de projeção, este filme cumpriu seu papel enquanto obra artística. A quantidade de filmes ‘’sem alma’’, sem coragem de gerar algum tipo de debate, é tão grande que quando surge uma obra sensível e que não exclui ninguém mesmo abordando temas estritamente religiosos, ficamos impressionados. É justamente isso que o diretor Ang Lee, já oscarizado por O Tigre e o Dragão (lembre-se que ele nos fez acreditar em guerreiros que pulam de árvore em árvore), consegue fazer com o tocante As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012).

O filme é uma adaptação do livro (que eu não li) escrito por Yann Martel, cujo nome é o mesmo do título original do filme, e narra a história de Piscine Molitor Patel, jovem indiano curiosíssimo. Sua família é dona de vários animais que vivem em um zoológico na Índia, e quando o governo para de dar apoio ao trabalho, eles decidem migrar para o Canadá, onde conseguiriam vender os animais. De navio, a família e as dezenas de animais rumavam em direção ao destino quando uma tempestade fez o navio naufragar, e Pi (apelidado dado ao personagem por ele mesmo) acaba em um pequeno bote salva-vidas na companhia de uma zebra, um orangotango, uma hiena (dopada de remédios) e um tigre de bengala chamado Richard Parker. A partir daí, Pi começa a passar por inúmeras provações, e sua fé é colocada em cheque.

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Pi é um personagem extremamente curioso. Hindú por criação, quando ainda garoto, Pi experimentou  o catolicismo e o islamismo. Em um determinado momento do filme, um debate entre seu pai, um homem extremamente racional e que parece não crer em explicações divinas para o entendimento do mundo, explicita a ideia de que você não pode acreditar em todas as crenças ao mesmo tempo. Se isso acontecer, é porque você, de fato, não acredita em nenhuma. Se não há entrega total do indivíduo para somente uma ideologia, não faz sentido ter crença alguma. O fato é que Pi, com suas três religiões, é um personagem interessante e complexo pois consegue enxergar um complemento, uma espécie de dependência e harmonia que as religiões precisam para viverem juntas. Só a figura de uma criança, pura e honesta, consegue agradecer um deus hindu por tê-lo apresentado a Jesus Cristo. Ao contrário do que o seu pai acredita, Pi não vê problema em crer nos numerosos deuses indianos, no Deus da igreja católica e no Alá muçulmano. Algo ali lhe complementa, e assim como boa parte da humanidade, a busca pela explicação de tudo vem de uma força maior.

Melhor do que o personagem é a abordagem que Ang Lee aplica a história. Não nos cabe esclarecer o final do filme, mas vale dizer que ao sair do cinema, o espectador terá que fazer uma escolha. Escolha essa que se assemelha a do ouvinte da história, no caso o jornalista que pretende transformar a história de Pi em um livro. Já na vida adulta, Pi conta ao jornalista exatamente como aconteceu sua jornada em busca da sobrevivência, e promete que, ao final de sua história, o jornalista passaria a acreditar em Deus. Assim acontece conosco, ouvintes dessa magnífica história, dotados de uma imensa diversidade de crenças e credos, decidir qual dos dois relatos é o preferido, e qual tomaremos como verdade.

Ang Lee, junto do roteiro de David Magee, é extremamente feliz ao fazer isso. Em um filme onde é quase impossível não haver descrenças sobre a história fabulesca que está sendo contada, e jogar ao espectador a escolha de acreditar ou não, é fantástica. Um exercício proposto pelos idealizadores do filme que consiste, somente, em um exercício de fé.

O visual.

Já que citamos o Oscar no início do texto, fica aqui a minha previsão. O Oscar de melhores efeitos especiais PRECISA ser dado a este filme. O tigre Richard Parker é, em 95% do filme, feito em CGI. Os detalhes de sua musculatura, a sombra, a plasticidade e naturalidade de seus movimentos… Tudo é espetacular. Não saberia dizer quando o tigre era feito totalmente em CGI ou se ali havia alguma captura de movimento num fundo verde, tamanha a perfeição da animação. Não há reclamações quanto a isso. As tempestades, os peixes… Tudo é extremamente bem criado e detalhista, nunca deixando transparecer algo inorgânico. Um trabalho, mais uma vez, ESPETACULAR.

 A fotografia também merece extremo destaque. Feita pelo chileno Claudio Miranda, responsável pela fotografia de Clube da Luta, os belíssimos quadros abertos retratando a imensidão do Oceano, com a variabilidade de cores usadas a noite, tornam o filme memorável do ponto de vista estético. Em vários momentos onde Pi tem sua fé testada, o filme ganha tons de contos de fadas, e é nesse momento que a fotografia ganha força.

O maior (e único) problema está no infantil uso do 3D. Feito para dobrar o número do ingresso, o 3D é utilizado aqui de forma totalmente desregular. Hora com planos absolutamente memoráveis e simbólicos, lotados de carga emocional, hora malfeitos e desfocados. Por conta da pouca profundidade de campo que um barco pode oferecer, o 3D é anulado em boa parte do filme.

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A edição e a composição da narrativa.

As aventuras de Pi sofre o mesmo problema de O Hobbit. Por colocar o personagem principal já velho contando sua aventura, não importa o que ele irá narrar, já saberemos que ele nunca correu algum risco de morte que valha a compra. Isso pode prejudicar muita gente, e o filme fica demonstrando, de forma até cansativa, através de rápidas transições do mar onde Pi estava, para a os cenários calmos onde o já adulto Pi está contando sua história. A narração por vezes se mostra desnecessária, já que o didatismo de ao mesmo tempo mostrar algo, e falar sobre a mesma coisa, pode irritar. A máxima do cinema de ‘’não fale, mostre’’ não é aplicada aqui.

Porém, como foi dito anteriormente, a edição se salva quando consegue imprimir um ritmo extremamente convidativo e empolgante, mesmo tendo em tela um tigre, um hindu magrelo, um bote salva-vidas e um imenso oceano.  Os 127 minutos passam absurdamente rápido, e isso é louvável.

As atuações.

Suraj Sharma interpreta Pi na adolescência, ou seja, durante a fatídica história de busca a sobrevivência. Na vida adulta, Pi é interpretado pelo sempre convincente Irrfan Khan (O Espetacular Homem Aranha). Ambos são sensacionais quando precisam demonstrar carga dramática em suas falas, ou quando rendem piadas involuntárias envolvendo religião e crenças. Os dois precisam de destaque, pois o primeiro teve que trabalhar sozinho durante as filmagens, já que é humanamente impossível contracenar com um tigre. E é incrível o trabalho feito por ele… Por outro lado, a cena que mais me emocionou (e os chiados de narizes no cinema não me deixam mentir) é de total responsabilidade de Irrfan Khan, que sozinho, num fundo desfocado, consegue passar toda a sua sutileza e emoção ao narrar sua história ao jovem jornalista.

Enfim…

Ang Lee, que estava vindo de filmes não muito bem realizados, mostra que ainda está em plena forma, e que só precisa de um bom argumento para contar uma excelente história.

Tocante, sensível e extremamente pertinente aos dias atuais de intolerância e guerras religiosas. Quem dera fossemos como Pi, que não vê problema em acreditar em Deus, Alá, e Ganesh. As aventuras de Pi é coeso e debate a força da fé, que está presente na vida humana em cada momento de sua existência. Talvez você tenha fé que a explicação que você precisa está na ciência, como afirma o pai de Pi. Mas você tem total fé nisso, e exatamente aí que está a grande virtude do filme.

Um grande filme, inclusive.

Porque o filme Hotel Transilânia deve ser visto

Porque o filme Hotel Transilânia deve ser visto

Por Pedro Fraga

A minha geração acompanhou de perto o trabalho de um artista da animação em particular. Crescemos assistindo O Laboratório de Dexter e Samurai Jack, sendo esse último uma das maiores revoluções no mundo das animações. Mundialmente conhecido pelos trabalhos atuais em Star Wars: The Clone Wars, Genndy Tartakovsky assumiu a cadeira de diretor no longa metragem Hotel Transilvânia (Hotel Transylvania, 2012), e mesmo tendo Adam Sandler e sua turma por trás do projeto consegue divertir como nenhum outro filme de animação do ano.

No século XIX, com o cenário de perseguição aos monstros e criaturas das trevas, o Conde Drácula decide construir um refúgio de paz e tranquilidade para aqueles que ganham a vida assustando. Assim nasceu o Hotel Transilvânia, que leva em seu slogan o compromisso de manter os humanos bem longe. A filha do vampiro mais famoso do mundo está completando 118 anos, e durante a maior temporada do hotel, um humano aparece para ‘’infernizar’’ as férias dos hóspedes e estragar os planos da festa de aniversário da vampirinha.

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Uma animação atrelada à comédia, como é o caso de Hotel Transilvânia, é olhada com outros olhos quando o nome de Adam Sandler está nos créditos finais. É fato que Sandler não é um dos comediantes mais talentosos atualmente (e seu maior papel está num filme dramático, diga-se de passagem), mas o preconceito gerado em cima de seus trabalhos é tamanho que já basta o nome do cidadão em um pôster que o rótulo de ‘’lixo’’ aparece automaticamente. E Hotel Transilvânia sofre muito disso, especialmente aqui no Brasil. Sandler é produtor executivo do filme, e boa parte dos dubladores originais está diretamente ligada a ele, já que estão em quase todos os filmes que Sandler produz. Não é problema nosso, porque a dublagem brasileira é bem divertida. Apenas um personagem sofre com o problema dos sotaques forçados, mas ele fala pouco.

O traço que diferencia os trabalhos de Tartakovsky infelizmente não está presente. Os rostos genéricos e que podem ser vistos na maior parte dos filmes da Dreamworks, por exemplo, deixam a desejar e se mostram o ponto mais fraco do filme. Em contrapartida, o carisma dos personagens consegue contornar a pouca originalidade no traço. Temos, por exemplo, o lobisomem pai de família, que sofre com sua enorme quantidade de filhotes. Temos uma múmia guitarrista, um homem invisível que jura que tem cabelo grande e muitos outros personagens secundários que conseguem arrancar várias risadas da molecada.

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E como não poderia faltar, temos aquela boa zoação com a mitologia fracassada de Crepúsculo e suas fadas, digo, vampiros. O Conde Drácula, vendo aquela baboseira na TV, manda um: ‘’A que nível fomos rebaixados… ’’.

A abordagem dos roteiristas Peter Baynham e Robert Smigel é extremamente bem sucedida quando coloca os monstros na posição dos humanos e vice-e-versa. Uma história sobre preconceito, ainda que sob a fachada de um amor adolescente. Várias piadas funcionam e mesmo se apoiando no clichê para concluir a trama, é possível sair satisfeito do cinema.

Fácil, dinâmico e divertido. Esse é Hotel Transilvânia.

Porque o filme Os Descendentes deve ser visto

Porque o filme Os Descendentes deve ser visto

Por Pedro Fraga

A mudança ocorrida na premiação do Oscar de uns tempos para cá diz que,  ao invés de 5 filmes indicados na categoria de ‘’melhor filme’’, teríamos 10. Estratégia de marketing ou não, acabaram abrindo as portas para produções menores, independentes. Assim como no ano de 2011 o filme ‘’O inverno da Alma’’ tenha sido indicado, em 2012 o que temos é algo semelhante. Uma produção que conta com um grande ator no elenco, com locações caras o bastante para não ser de fato um filme de baixo orçamento, mas que não tira de sua estética e de sua narrativa o rótulo de filme indie do ano.

Filmes com histórias familiares geram um apego quase que imediato na maioria do público que frenquenta o cinema. E em ‘’Os Descendentes’’ (The Descendants, 2011) a coisa se repete, levando o conflito familiar a um nível um pouco além do que estamos acostumados a ver. Além de confrontar pais e filhos, temos aqui mais dois elementos: Infidelidade matrimonial e negócios.

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Aqui, George Clooney interpreta Matt King, um advogado um tanto avarento que se ocupa demais com seu trabalho. Seus tataravôs deixaram para ele (e mais um montão de primos) uma vasta quantidade de terras no coração de alguma ilha no Havaí. Já dá pra ter uma noção do problema que é dividir isso entre a galera, né?  Enquanto sua vida se limita as longas horas presas em seu escritório, sua filha mais velha passa a consumir álcool na escola que estuda e sua caçula sabe mais palavrões que qualquer humorista da nova geração. Sua mulher, carente por atenção, o trai. Até que, num belo dia de sol no Havaí, Elizabeth, sua mulher, bate a cabeça fortemente num acidente de barco, e isso a deixa num coma permanente. Matt K., um jovem senhor, se vê na missão de administrar essa ‘’família’’ tão fragmentada pelas más escolhas e pela falta de proximidade, além de escolher entre vender as terras ou continuar com posse do legado de sua família.

A atuação de Clooney – que já lhe rendeu o globo de ouro – é única. Em todos os seus papéis, nunca lhe foi imposto um personagem com uma missão tão delicada e que exigisse uma carga emocional tão intensa. Aqui, Clooney corre um quarteirão inteiro de forma desengonçada, chora de forma convincente, e se faz um pai tremendamente dedicado. Se a atuação do galã se mostra impecável, temos também o resto do elenco que, extraídos ao máximo, levam o filme de forma absolutamente natural.  Destaque para o elenco jovem, formado por Amara Miller e Shailene Woodley.

A fotografia do filme é composta pela belíssima paisagem havaiana, que transmite uma sensação de paz e tranquilidade mesmo em meio a todo esse turbilhão de emoções e sentimentos. Assim também se faz a trilha sonora, cheia de músicas folclóricas da região.

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Alguns conceitos impostos pelo roteiro, como a analogia entre a família e o arquipélago – onde a família é fragmentada entre várias ilhas -, fazem com que o espectador reflita um pouco sobre o verdadeiro sentido da família. Mas nada que qualquer um de nós já não tenha visto em outros dramas familiares.

Como um filme de Oscar, ‘’Os descendentes’’ se aproveita do fraco ano para o cinema e arranca a vaga destinada aos filmes independentes, se aproveitando de seu forte elenco e, consequentemente, de suas ótimas atuações. Mas o roteiro não traz nada de extraordinário ao gênero, e a sensação de ‘’algo mais’’ falta aos espectadores ao final da sessão. Mesmo não sendo tudo o que fora prometido, o filme merece sim ser visto. E vá com sua família,é possível que ela saia de lá mais unida.